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Missa Crismal - Homilia

Dom João Francisco Salm (25/03/2016)

Irmãs e irmãos: Padres, Diáconos e Candidatos ao Diaconato, Religiosas, Seminaristas, Representantes das Paróquias...; enfim, saúdo a cada um e a cada uma aqui presentes e a vocês que sintonizam a Rádio Tubá.

01. Naquele sábado, Jesus entrou na Sinagoga e repetiu as palavras que, séculos antes, Isaías já havia dito (Is 61,3): “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim porque o Ele me ungiu” (Lc 4,18). Falando assim, Isaías reconhecia ser ele mesmo um ungido do Senhor para levar a bom termo a missão que Deus depositara em suas mãos e em seu coração: a missão de anunciar e proclamar ao seu povo a graça, a liberdade, a alegria e a consolação. E Jesus, por sua vez, em Nazaré, no encontro da comunidade em dia de sábado, tomando emprestadas essas palavras de Isaías, dá-lhes pleno sentido e realização: diante do olhar fixo dos presentes, tomados de espanto, encanto e esperança, Jesus senta e faz sua homilia, tão mais intensa quanto breve: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir” (Lc 4,21). Aqui, o “hoje” usado por Jesus significa “agora”, “tempo novo”, “tempo da graça”, “momento opor-tuno”, o “kairós” da Palavra interpelante de Deus e da nossa resposta pronta e sincera; o anúncio, a escuta e a resposta aqui e agora: tudo no “hoje” de Jesus!

02. Em Jesus de Nazaré, as palavras de Isaías ganharam corpo, rosto e voz. Nele, essas palavras se realizaram plenamente. Também nós, aqui reunidos, como Presbitério e como Igreja Diocesana, dóceis ao Espírito Santo, recebemos de Jesus essas mesmas palavras e as repetimos: “O Espírito do Senhor está sobre mim porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa-nova aos pobres... a libertação aos cativos... a vista aos cegos... a liberdade aos oprimidos” (Lc 4,18). Falando assim, dizemos quem verdadeiramente somos: juntos, a uma só voz, afirmamos que somos todos servidores do Senhor e não senhores da Missão.

03. O sacerdote Aarão, conforme se lê no capítulo 28 do Livro do Êxodo, trazia em suas vestes, sobre os ombros e o peito, pedras preciosas e símbolos com os nomes das doze tribos de Israel. Ao ser ungido, o óleo lhe descia por sobre as vestes, encharcando o tecido e os símbolos que estavam sobre os ombros e sobre o peito (Ex 28,1-30). O significado é muito bonito: o sacerdote carrega aos ombros e leva sobre o coração todos e cada um dos filhos e filhas de Israel! Essa é a missão do sacerdote: levar nos ombros e no coração todas as pessoas que lhe são confiadas. O óleo escorrendo e encharcando tudo, mostra que o povo todo é ungido, é todo sacerdotal, em missão, na força do Espírito Santo, exalando o “bom perfume de Cristo” (2Cor 2,15). Conscientes, então, do que somos; conscientes da grandeza e da dignidade da nossa vocação e missão, como num grande coral, a várias vozes, cantamos com o salmista: “Oh, como é bom, como é agradável, para irmãos unidos viverem juntos. É como um óleo suave derramado sobre a fronte, e que desce pela barba, a barba de Aarão, para correr em seguida até a orla de seu manto”.

04. Cristo – que significa Ungido – é o Ungido por excelência. Nós sabemos que Ele, assim, na força do Espírito Santo, passou pelo mundo fazendo o bem: curando e libertando e amando até o fim, em total entrega, sem reservas. Deus estava com Ele (At 10,37-38). Nós sacerdotes ministeriais, somos Ungidos como Ele: o mesmo Espírito nos anima. A referência para nossa maneira de viver terá de ser sempre Cristo. Revestidos dele, assumiremos como nosso, o seu estilo de vida: manso e humilde, orante, feliz, evangelizador, apaixonado, pobre, despojado, ousado, próximo e dedicado. Assim cristificados, feitos Ministros pelo Sacra¬mento da Ordem, tornamos presente no mundo o próprio Jesus Sacerdote e Servo.

05. Mas é preciso dizer, caros irmãos e irmãs leigos e leigas, batizados e confirmados pelo sacramento da Crisma: não só os Ministros, Sacerdotes do Senhor pelo Sacramento da Ordem; também vocês; vocês também receberam a Unção com o Óleo do Crisma. Também vocês foram ungidos na fronte no dia do seu Batismo e na Crisma, simbolizando o Espírito do Senhor que lhes foi dado para formarem um templo espiritual e um sacerdócio santo, testemunhas de Jesus Cristo Luz do mundo (cf. Ap, nº 209). Uns e outros, Sacerdotes e cristãos leigos e leigas, cada um a seu modo, participam do único sacerdócio de Cristo.

06. Quando lemos na bíblia relatos de unção como a de Samuel (1Sm 10,1) ou de Davi (1Sm 16,13), impressiona a quantidade de óleo, com perfume, derramado a ponto de atingir até mesmo o chão. O povo bíblico quer, com isso, dizer que dessa grande quantidade de óleo derramado na cabeça, parte entra para dentro da cabeça e vai banhar o interior da pessoa, vai banhar o coração, a alma e as entranhas. Isso quer dizer que na verdade é no coração que somos ungidos: “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo” diz São Paulo (cf. Rm 5,5). Ali a unção é indelével, imprime um caráter e não pode mais ser apagada. “Tirarei do vosso peito o coração de pedra, e vos darei um novo coração” (Ez 36,26). Ungidos no coração não podemos mais deixar de ser quem somos: identificados com Cristo – cada um e cada uma de nós, vocês e eu.

07. Pois bem. É este Óleo do Crisma, com que somos ungidos sobretudo no coração, que será consagrado daqui a instantes. Também serão abençoados o Óleo dos Enfermos, para remédio e alívio aos doentes; e o Óleo dos Cate-cúmenos, destinado a preparar e dispor o coração dos que vão ser batizados.

08. Estes Óleos que vão ser abençoados simbolizam toda a ação salvadora e libertadora de Jesus. Lembram seu programa de vida: “fazer a vontade do Pai” na força do Espírito Santo: ser o servidor, o diácono da Vontade do Pai; o “Rosto da Misericórdia do Pai”!

09. Entendemos, assim, por que Jesus recomendou que fôssemos “Misericordiosos como o Pai”: para que se comprove que a missão dele, de Jesus, teve êxito!

10. De forma mais clara e concreta, o Papa Francisco disse que é verdadeiramente misericordioso ou misericordiosa quem se comporta como o Bom Samaritano. É Bom Samaritano quem tem um coração capaz de compaixão, assim como é o Coração do próprio Cristo! Somos ungidos, como Jesus, pelo Espírito Santo para que tenhamos um coração como o dele e sejamos Bons Samaritanos.

11. O samaritano não passa distraído nem permanece indiferente diante daquele homem que, tendo sido brutalmente espancado por bandidos, jazia impotente na beirada estrada. Quando o vê, compadece-se, esquece suas preocupações e, inclinando-se, presta ao ferido os primeiros socorros e limpa as suas chagas. Por último, paga adiantado e com generosidade ao homem da hospedaria, as possíveis despesas adicionais e a assistência necessária.

12. A nós, Ministros do Perdão – ou “Samaritanos do Perdão” – o Papa diz que a verdadeira misericórdia se interessa pela pessoa que chega com problemas de consciência e deseja confessar-se: ouve-a atentamente, aproxima-se com respeito e com verdade da sua situação, acompanhando-a no caminho da reconciliação, fazendo com que se sinta – como se há muito tempo tivesse sido esperada – amada e perdoada. A verdadeira misericórdia acompanha a pessoa no seu caminho de santificação e a faz desenvolver-se e crescer em santidade.

13. Tendo dito essas coisas, o Papa continua: “Isso é trabalho demasiado para um padre? É verdade. É muito trabalho! Mas, um trabalho que para produzir frutos precisa do sofrimento pastoral, que é uma forma de misericórdia. Sofrimento pastoral quer dizer: sofrer pelas pessoas e com as pessoas; sofrer como um pai e como uma mãe sofrem pelos seus próprios filhos”. E o Papa, para se explicar, faz mais perguntas que, diz ele, o ajudam nas conversas com os padres e quando se encontra a sós com o Senhor: “Tu choras? Nós derramamos lágrimas? Tu choras o pranto do sacerdote? Neste presbitério nós derramamos lágrimas? Tu choras pelo teu povo?” Em seguida, recorda uma antiga oração para pedir o dom das lágrimas: “Senhor, Vós que confiastes a Moisés o mandato de bater na pedra para que dela brotasse a água, batei na pedra do meu coração, para que eu verta lágrimas...” E volta a perguntar: “Quantos de nós choram diante do sofrimento de uma criança, perante a destruição de uma família, diante de tantas pessoas que não encontram o seu caminho? Tu intercedes pelo teu povo diante do tabernáculo? Tu lutas com o Senhor pelo teu povo, como Abraão? Brigas com o Senhor como Moisés? Como terminas o teu dia? Com o Senhor ou com outras distrações? Como é teu relacionamento com aqueles que te ajudam a tornar-te mais misericordioso: as crianças, os idosos e os enfermos?”.

14. Pois é: o dom das lágrimas e a virtude do sofrimento pastoral como misericórdia!

15. Meus amigos, irmãos e irmãs, o Espirito Santo foi derramado em nossos corações para que, ungidos por ele, movidos pelos sentimentos do Filho, o Cristo, em nossas vidas, pelo ser e pelo agir, brilhe, constantemente e resplandecente, “o rosto da Misericórdia do Pai”.

16. A cada um de vocês, padres e também aos diáconos, meus cumprimentos por este dia da Instituição do Sacerdócio Ministerial, da Eucaristia e do Mandamento Novo do Amor Mútuo e da Diaconia. Muito obrigado pela entrega, pelo serviço e pela amizade!

17. A cada um e a cada uma de vocês, religiosas, leigos e leigas, irmãs e irmãos queridos, tão presentes na vida dos nossos Padres, Diáconos e Seminaristas, muito obrigado!

Deus nos abençoe hoje sempre!

Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

DOM JOÃO FRANCISCO SALM
Bispo da Diocese de Tubarão
Tubarão, 25 de Março de 2016

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