• Irmã Johanna Newmann - Deus nos visitou!

Irmã Johanna Newmann - Deus nos visitou!

Friday, February 26, 2021 | Padre Auricélio Costa

Deus nos visitou sobremaneira nestes tempos. Ele quis se revelar a nós através de olhinhos azuis brilhantes e sorrisos sinceros e palavras amigas pronunciadas com uma voz suave, segura e com encantador sotaque alemão.

Era Ele quem nos via com aquele olhar penetrante e atento. Cada um que se aproximou dela foi observado profundamente com amor e ternura. Sua presença alegre irradiava aquela alegria própria dos que têm intimidade com o Senhor.

E ela sabia muito bem, que pela sua presença entre as pessoas, também estava evangelizando. E, às vezes, nos dava a impressão de que estávamos diante de uma senhora menina ou de uma jovem senhora, tão entusiasmada era pela vida, pela missão, pela Igreja, pelo Reino... e por Cristo.

“Queria muito ter mais saúde para continuar minha missão junto aos pobres da Área Verde; mas, já não posso mais. Então, os acompanho daqui de casa e com as minhas orações!”, disse-me certa vez.

E, de fato, ela se dedicou admiravelmente àquelas pessoas mais carentes de nossa cidade. Lá na Área Verde, batizada de Jardim Floresta, uma espécie de assentamento espontâneo de famílias vindas dos recantos mais recônditos deste país, onde a miséria, a drogadição e a violência vêm morar; lá onde, às vezes, nem o poder policial conseguia adentrar.

Mas, para a Ir. Joahanna, nenhum ‘olheiro’ e nenhum traficante impedia a passagem. Sabiam que dela só vinha coisa boa, só vinha ajuda e caridade, só vinha amor. Remédios e alimentos, acompanhados de palavras de ânimo e testemunho cristão, eram bem vindos. Até não-católicos lhe abriam as portas de suas casinhas.

Foi catequista de muitos adultos daquela região, bem como de outros bairros, preparando-os para os mais diversos Sacramentos. O que desejava, na verdade, é que eles se sentissem amados por Jesus e pela Igreja e se tornassem pessoas melhores. “Dói-me na alma que eles não venham para a Igreja, mas não posso parar de evangelizar!”, confidenciava, algumas vezes com seus olhos marejados e com o rosto enrubescido pela emoção.

Certa vez a encontrei na Secretaria Paroquial da Paróquia Santa Terezinha, na Passagem, em Tubarão. Veio comprar alguns Catecismos para Adultos e me abordou: “Padre, já conhece este novo Catecismo? Ah, vou dar de presente para meus catequizandos”. Então, percebendo que eu estava carregando a Carta Encíclica Laudato Sì, do Papa Francisco, observou: “Ah, que Documento maravilhoso! Que coisa linda!” Sim, Ir. Johana era muito estudiosa!

Quantas vezes ao cumprimentá-la antes das celebrações, eu percebia o quanto ela estava concentrada interiormente e ávida pela liturgia eucarística. Atenta a tudo, a cada rito e cada palavra, meneava a cabeça concordando e acolhendo as afirmações do pregador durante a homilia. E, ao final das Missas, sempre ela tinha a delicadeza de se aproximar de mim e, fitando-me os olhos, sorrindo, dizia: “obrigado pela Missa, pela catequese, pela música”.

Ninguém nunca duvidou que ela era uma santa entre nós. Não obstante a sua partilha de conhecimentos através das aulas e palestras que ministrava em várias instituições e organismos eclesiais, ela enriquecia a todos também com seu silêncio, com sua oração e com sua capacidade de ouvir.

Mulher consagrada, filha espiritual do Pe. Guilherme Meyer, encarnou o carisma de seu Instituto Coração de Jesus: “Caminhar, consciente e comunitariamente, na Presença de Deus e anunciá-la ao mundo, sobretudo às famílias e às comunidades paroquiais, como fundamento da espiritualidade e impulso para a missão”.

 

Inspirada nos ensinamentos do Fundador, Ir. Johanna buscou “Caminhar na Presença de Deus” seguindo os ‘sete caminhos’ que o Pe. Meyer apresentou: os caminhos comunitário do amor, da paz, da cruz, da conversão, solitário, do apostolado e da alegria.

Desde de 1922, quando foi fundado o Instituto em Germete, na cidade de Warburg, na Alemanha, trilhando estes caminhos, as pioneiras Irmãs chegaram ao Brasil em 1938 e, em Braço do Norte no ano de 1949.

Ir. Johanna amou sua família religiosa, participando ativamente das alegrias e das dores da sua jornada, enfrentando os desafios com esperança e confiança no Coração de Jesus, seu Divino Esposo. Ali assumiu várias funções administrativas e formativas, incentivando os Círculos de Amigos.

Este amor esponsal a alimentava e a impulsionava mais e mais para a vida de santidade em nossos tempos. Nela vemos muitos dos atributos de Jesus ou, em outras palavras: nela vemos Jesus agindo!

Capaz de sair de si, vivendo sua vocação missionária, deixando sua amada Alemanha, depois de ter cuidado dos pais como filha única. “Minha família de sangue é pequenina assim. Papai e mamãe só tiveram a mim de filho. Então, sinto-me adotada pelo Brasil”, testemunhou.

Acolheu uma nova cultura e se deixou envolver por ela, sem nunca esquecer suas raízes culturais. Humilde, estava sempre disposta a servir, mesmo tendo que ‘disfarçar’ desconfortos de saúde. E, diante de situações embaraçosas, sabia silenciar e dar uma orientação segura.

Olhava as pessoas com um olhar de Jesus, por isso sabia ‘olhar’ com amor. E não lhe custava abrir sua carteira para ajudar tantos carentes que chamavam por ela, no portão de sua Fraternidade, em qualquer horário do dia ou da noite. Ela sabia também quando era preciso lhes dar um ‘puxão de orelhas’.

Seu amor à Nossa Senhora era frutuoso em sua vida pessoal e missionária. Com legítimo coração de mulher consagrada, como Maria, desenvolveu um jeito de ser irmã entre os irmãos e mãe de tantos filhos e filhas. Diretora Espiritual da Legião de Maria, a recitação das contas do rosário era uma de suas devoção.

Mas, hoje, a notícia de sua morte nos deixa tristes e pesarosos. O céu nublado, após tantos dias de sol intenso, nos dá a impressão de que também a natureza nos convida a um recolhimento respeitoso e celebrativo.

Não há como apenas lamentar o passamento de Ir. Johanna, porque a sua passagem entre nós foi tão enriquecedora! Há que agradecer também!

Que a COVID-19 tenha lhe apressado o agravamento de suas condições físicas, justamente no dia em que o Brasil registra mais de 250.000 óbitos pela doença, é significativo que possamos louvar a Deus pelo dom de sua vida e de sua santidade.

Ainda iremos ouvir e conhecer muitos aspectos da sua vida! As queridas e dedicadas Irmãs do Instituto, vivendo o luto e a gratidão a Deus, no limiar do seu Jubileu do primeiro Centenário de Fundação, no próximo ano, saberão guardar a memória desta filha dileta do Pe. Meyer.

Certamente, a nossa Diocese não deixará o testemunho de Ir. Johanna guardado em algum livro de história. Igualmente, o povo de Deus da Paróquia da Passagem, evidentemente, saberá honrar o nome desta ‘santa’ que ali viveu e muito amou.

Fomos visitados por Deus! E na infinda Misericórdia de seu Coração, nos visitou na pessoa da Ir. Johanna Newmann. Louvado seja! E seja amado em toda parte!

 

Conheça o blog do Padre Auricélio no link: http://padreauricelio.blogspot.com

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