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A Pastoral Coletiva - Modelo de Ação

Pe. Agenor Brighenti (05/05/2017)

MODELOS DE PASTORAL EM TORNO
À RENOVAÇÃO DO VATICANO II – III


Antes do Vaticano II, além da Pastoral de Conservação, havia também um outro modelo denominado Pastoral Coletiva. Ambos foram superados pela renovação do Concílio. O primeiro é do período de Cristandade e, o segundo, do período de Neocristandade. Entretanto, ambos continuam presentes na Igreja, ainda hoje. Vejamos, neste artigo, o “modelo de ação” da pastoral coletiva. No próximo, veremos a visão de Igreja subjacente a ele.

Um modelo da neocristandade

A Pastoral Coletiva é um modelo de pastoral e de evangelização que teve seu auge no século XIX, quando a Igreja pré-moderna jogou suas últimas cartas no confronto com a modernidade, um mundo emancipado da tutela do religioso. Um século depois, ela seria desautorizada, em seus pressupostos, pelo Concílio Vaticano II, que vai inserir a Igreja “no” mundo, em uma atitude de “diálogo e serviço”.

Nos dias atuais, com a crise da modernidade e a falta de referenciais seguros, a Pastoral Coletiva volta com força, com ares de “revanche de Deus”, com muito dinheiro e poder, triunfalismo e visibilidade, guardiã da ortodoxia, da moral católica, da “sagrada tradição”. Constitui-se, hoje, na mais acabada expressão de um modelo de evangelização ultrapassado, mas que se apresenta como “nova”, dizendo-se a única capaz de manter vivos em um mundo secularizado, os ideais evangélicos. A Pastoral Coletiva é a principal responsável pelo processo de “involução eclesial”, que se instaurou na Igreja nas últimas três décadas, e que o Papa Francisco está empenhado em reverter, assim como o fez Aparecida.

Uma ação apologética

No período de Cristandade, havia uma união entre o trono e o altar, entre o poder religioso e o poder civil. Com a modernidade, particularmente com a Revolução Francesa, deu-se a separação entre Igreja e Estado. Mas, a Igreja, pensando que para o mundo ser salvo deveria estar dentro dela, pois acreditava que “fora da Igreja não há salvação”, não aceitou esta separação e colocou de pé um projeto de ação para trazer de volta o mundo para dentro da Igreja. No período de Cristandade, quem fazia isso era o clero, de cima para baixo. Agora, como o clero não é mais aceito pela sociedade liberal e anti-clerical, envia os leigos a fazer o mesmo, só que de baixo para cima. É o que Jacques Maritain chamou de neocristandade.

A Pastoral Coletiva é uma ação apologética porque é de combate à modernidade e contrária à autonomia do poder civil em relação ao religioso. Como estratégia de evangelização, este modelo assume a defesa da instituição católica diante de uma sociedade supostamente anticlerical, assim como a guarda das verdades da fé frente uma razão dita secularizante, que não reconheceria senão o que pode ser comprovado pelas ciências. Se a Pastoral de Conservação é pré-moderna, a Pastoral Coletiva é anti-moderna.

Uma missão centrípeta

A Pastoral Coletiva se apoia numa “missão centrípeta”, a ser levada a cabo pela milícia dos fiéis, “soldados de Cristo”, a “legião” de leigos e leigas “mandatada” pelo clero. A missão consiste, numa atitude apologética e proselitista, em sair para fora da Igreja e trazer de volta as “ovelhas desgarradas” para dentro dela. Para isso, cria-se os movimentos e as associações apostólicas, muitos deles com seus hinos marciais, suas bandeiras e estandartes, seus trajes. Trata-se de “recristianizar” o mundo, de implantar a Igreja, e não de “cristificar”, tornando presente o Reino de Deus. Esquece-se que a Igreja é consequência da acolhida do Reino, que está presente para além de suas fronteiras.

Denomina-se Pastoral Coletiva, pois cada movimento ou associação faz seu trabalho, independentes uns dos outros. Tal como na Idade Média, em que não havia sindicato e cada profissão formava uma corporação, na Pastoral de Coletiva não existe Pastoral Orgânica e de Conjunto. Cada movimento ou associação, presidido pela hierarquia, pensa e executa sua ação, independentes uns dos outros. Cada movimento ou associação forma um “corpo”, ao contrário de constituir-se em membro de um único corpo que é a Igreja.

Dentro dos parâmetros da Pastoral Coletiva, dá-se uma ação invertebrada, sem um objetivo comum ou um eixo aglutinador, que assegure uma atuação consertada entre todos. Há uma mesma fé, mas não há um plano comum de ação. Há um “conjunto de pastorais”, mas não há “pastoral de conjunto”.

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