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Natal: Perceber a Novidade

Dom João Francisco Salm (05/12/2016)

São João Crisóstomo, um dos grandes pregadores dos primeiros séculos cristãos, referindo-se ao “bom ladrão”, aquele condenado à morte ao lado de Jesus, disse: “Ó admirável malfeitor! Viste um homem crucificado e o proclamaste Deus!”. Estamos no Advento, que nos conduzirá a uma Gruta desprovida de qualquer conforto, na periferia da cidade. Ali nossos olhos verão apenas um “Recém-nascido” pobre. Será que nossa fé nos permitirá enxergar mais longe, a ponto de, como o “bom ladrão”, o proclamarmos Deus?

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Quando José e Maria levaram o Menino Jesus ao Templo para apresentá-lo a Deus, conforme era prescrito (cf. Lc 2,22-35), havia por lá muita gente: pessoas de serviço, sacerdotes e peregrinos. Quanto desejo de fazer a experiência do encontro com Deus! No entanto, ninguém podia imaginar que Ele caminhava ali, entre os demais, feito um menino, filho de pais muito simples. Todos podiam vê-lo; reconhecê-lo, porém, foi dado somente a dois anciãos: Simeão e Ana. Já velhos, souberam ver “a novidade”. A fé da longa espera, da vigilância e do desejo de encontrá-Lo, permitiu que contemplassem a Luz que veio iluminar o mundo.

Santa Madre Teresa de Calcutá afirmou certa vez que “quem não é capaz de ver Jesus Cristo na Hóstia Consagrada também não seria capaz de reconhecê-lo no pobre”. E, então, por que muitos não conseguem reconhecê-lo na Eucaristia? Quem não reconhece Jesus num irmão ou numa irmã, sobretudo quando são difíceis, antipáticos, quando incomodam ou são carentes e pobres, necessitados de atenção, saberá reconhecê-lo numa de suas múltiplas e variadas presenças em nossa vida?

A celebração do Natal tem o seu centro e razão de ser em Jesus de Nazaré, o Filho de Deus, o Cristo Salvador da humanidade nascido em Belém, filho da Virgem Maria e do pai adotivo, José. O Natal cristão parte precisamente dessa verdade. Isso requer um ato de fé; a fé do “bom ladrão”, de Simeão e Ana, de Santa Madre Teresa, dos Reis Magos, dos Pastores; a fé de Maria, de José e de tantas outras testemunhas que marcaram a História da Salvação.
Todos os sinais e símbolos natalinos deveriam ajudar-nos a despertar para o essencial. O risco, porém, é que enfeites, luzes, músicas, presentes, papai Noel, férias, festas e passeios sirvam apenas para acobertar a dificuldade de crer. Ou, até mesmo, podem levar a tanta distração e superficialidade que acabam desviando as pessoas do caminho que levaria ao encontro com o Senhor.

Um encontro, para ser verdadeiro, real e transformador, necessita ser desejado e bem preparado; requer empenho pessoal e comunitário. A Igreja nos convida, orienta e oferece meios em abundância: a Palavra de Deus, a oração, as celebrações Eucarísticas, o Sacramento da Penitência, os Grupos de Famílias e de Oração, subsídios diversos; convites à conversão, à partilha, à reconciliação, à saída em direção ao pobre, ao doente, ao idoso, ao descartado, às diferentes periferias...

“Deixar-nos surpreender por Deus”, dizia o Papa Francisco. Perceber a novidade! Façamos todos os dias a oração do cego de Jericó: “Senhor, eu quero ver!” ( Cf. Lc 18,35-43).

Feliz Natal!

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