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Crise de sentido e volta do religioso

Pe. Agenor Brighenti (01/10/2016)

Uma das ambiguidades de nosso tempo é, por um lado, a sede de Deus e, por outro, a volta do religioso. A sede de Deus se deve à anemia espiritual, fruto de um projeto civilizacional economicista, que deixou sem resposta questões importantes ligadas à vida. A volta do religioso responde à demanda por uma instância de sentido para a aventura humana.

Sede de Deus

Diante de um projeto civilizacional edificado sem referência a uma instância de sentido, ainda na década de 1950, Aldré Malraux havia diagnosticado que o século XXI seria religioso ou não seria. Visão certeira. Sobretudo nas sociedades secularizadas, a religião está em alta. Uma surpresa, pois parecia-lhes que Deus era uma questão definitivamente relegada a uma etapa infantil da humanidade.

De fato, a atual sede de Deus se deve a uma crise de sentido do projeto civilizacional moderno. Em consequência, as instâncias capazes de dar um sentido ao conjunto da realidade que nos cerca, que são a cultura e a religião, estão de diluindo - “tudo o que é sólido se desmancha no ar”. E, com isso, em lugar de critérios globais, dispõe-se apenas de critérios parciais e múltiplos frente à vida, levando as pessoas a se sentirem frustradas, ansiosas e angustiadas. A vida aparece cada vez mais como uma série de novos começos e se transforma numa experimentação contínua de novas opções, estilos a provar e oportunidades inexploradas. Sobretudo os jovens se veem afetados por uma espécie de “consumismo de oportunidades fugazes”. Critérios tidos universais como lealdade já não é um valor, nem a responsabilidade baseada em convicções. Prima uma espécie de “ética do depende” ou do gosto pessoal.

A reação à crise de sentido é a busca por um referencial de valor mais amplo, capaz de agrupar os critérios parciais. Dada à hegemonia de uma sociedade mercantilizada, como a cultura se apresenta cada vez mais secularizada, resta a religião como único horizonte possível. Daí a atual sede de Deus. Mas, não do Deus das religiões institucionais. Como podemos perceber ao nosso redor, há muita religiosidade e pouca religião. Aumenta o número dos que têm práticas religiosas, sem que cresçam as religiões. Isso tem contribuído para o eclipse de um ‘catolicismo cultural’, de cristandade, e para a consequente emergência de uma experiência religiosa, cada vez mais fundada em escolhas pessoais. Da mesma forma como acontece com as instituições em geral, também na religião, dá-se uma autonomia dos sujeitos em relação à tradição, deslocando as decisões em matéria religiosa, para a esfera da subjetividade.

Volta do religioso: retorno do sagrado?

Estudos atuais comprovam que entre a crise de sentido e a sede de Deus, está a irrupção de uma religiosidade eclética e difusa, a volta de um neopaganismo imanentista, que confunde salvação com prosperidade material, saúde física e afetiva. É a religião a la carte: Deus como objeto de desejos pessoais, solo fértil para os mercadores da boa-fé, no cada vez mais próspero mercado do religioso. Irrompem religiosidades, em generosa oferta de crenças, numa espécie de ‘mercado do religioso’. Hoje, a experiência religiosa é, cada vez menos fator de ‘sentido’ do mundo, de identidade ou de enraizamento e, cada vez mais, resposta à angústia existencial e porto de certezas. O individualismo e a busca de bem-estar imediato levam o indivíduo a colocar a religião a seu serviço, fazendo de Deus um objeto de desejos pessoais. Em contrapartida, para responder às demandas do mercado e vender os seus ‘produtos’, a religião se apresenta cada vez mais eficiente e organizada conforme o marketing. É essa religião difusa, invisível, implícita, diluída, que se tornou hoje, o produto mais rentável do capitalismo.

Como muitos estudiosos já chamaram a atenção, o retorno do religioso não é necessariamente uma volta do sagrado. Essa efervescência religiosa no interior de uma modernidade em crise se mostra, de modo cada vez mais claro, como uma radicalização da secularização, por duas razões básicas. Por um lado, a experiência religiosa entrou no circuito do mercado, transformando-se num bem de consumo, rentável. Por outro, dada à exclusão crescente de amplos segmentos da população, a religião colou-se de tal modo às condições materiais da vida ou da existência, que se transformou em puro ‘reflexo’ da ‘materialidade’ das condições de sobrevivência. A religião, hoje, adquire um senso imediato e pragmático, ligada à magia, à cura, ao exorcismo, à bênção, etc. Pouco exigente do ponto de vista ético, mas muito eficiente no nível místico em termos de júbilo, êxtase, catarse e emoção.

É o ser humano sentindo-se impotente no seio de uma sociedade fragmentada, frente a tantos obstáculos a vencer e apelando para saídas providencialistas, entre a magia e o esoterismo. A religião tem uma dimensão terapêutica, não se pode negar. Mas, ao lado do terapêutico é preciso colocar o profético, como também ao lado do estético é preciso colocar o ético. A “religião do corpo”, na medida em que Deus quer a salvação a partir do corpo, pode ser porta de entrada da religião. Entretanto, se não transcender, será uma porta de saída, uma secularização do religioso, uma religião sem Deus.

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