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Crise das Instituições e passagem da Sociedade à Multidão

(10/08/2016)

Numa sociedade marcada por profundas transformações, que nos mergulham num tempo de crise, a tendência é sentir-se perdido, sem rumo e ter uma visão pessimista de tudo o que nos rodeia. Entretanto, não estamos jogados à nossa própria sorte. A história é sempre marcada pela ambiguidade, por sombras e por luzes, por contra valores e novos valores, por coisas a deixar para trás e outras a acolher. É o Espírito, sempre suscitando novos “sinais dos tempos”, através de pessoas de boa vontade interagindo como o Senhor da história.

Uma das ambiguidades de nosso tempo, por um lado, é a crise das instituições: crise da família, das tradições, da escola, do Estado, das organizações, como também das Igrejas e religiões. Quando elas não respondem às legítimas aspirações, as pessoas tomam distância delas, são esvaziadas e perdem o controle da normatização da sociedade. Por outro lado, a sociedade fragmentada não significa simplesmente a dispersão das pessoas. Toma-se distância das organizações tradicionais e criam-se outras formas de inter-relação, capazes de continuar agregando os indivíduos em torno a aspirações comuns.

As instituições perdem o controle

A crise das instituições se deve ao fato, não de que sejam dispensáveis e devam desaparecer, mas de não se terem renovado para responder às novas e legítimas necessidades das pessoas que as integram. As razões do esvaziamento das instituições são diversas. Por um lado, toma-se distância delas, quando não respeitam a liberdade e a legítima autonomia das pessoas. Quando se tornam instituições totalizantes, um “nós” sem “eus”, impositivas e não propositivas, controladoras e não subsidiárias, ficam sozinhas. As próprias tradições, como não se renovaram, já não se apresentam como uma necessidade que se impõe, perdendo sua força orientadora e normativa da sociedade. Hoje, ninguém mais aceita se anular ou renunciar à sua consciência ou a seus direitos, em prol da instituição. Toma-se consciência de que a obediência cega é um ato imoral.

Por outro lado, toma-se distância das instituições como escola, Estado e até Igrejas e religiões, porque em grande medida se atrelaram ao mercado, instrumentalizando os indivíduos, fazendo de sujeitos, objetos. Numa sociedade onde tudo é mercantilizado, até as pessoas foram transformadas em “recurso” (recursos humanos), quando na verdade as pessoas jamais podem ser feitas recursos, dado que são sempre fins, jamais meios. Em consequência, os que não se deixam anular ou instrumentalizar, com razão, tomam distância das instituições. A distância se dá pela internalização das decisões na esfera da subjetividade, esvaziando as instituições.  Com o agravante de cada um se sentir no direito de fazer de sua vida pessoal o que bem entender, sem o controle das instituições. Trata-se de pessoas órfãs de sociedade e, também, órfãs de Igreja.

A passagem do social ao cultural

O esvaziamento das instituições é a prova mais contundente de que estamos vivendo uma grande transformação social. No século XVI, com o advento da modernidade, no contexto da primeira ilustração, deu-se a passagem da sociedade medieval sob a tutela do religioso ao político, com o aparecimento do conceito de Estado, soberania, nação, povo, partido político, etc. No século XIX, no contexto da segunda ilustração, deu-se a passagem do político ao social, com o surgimento do conceito de classe, movimentos sociais, direitos sociais, sujeitos sociais, etc. Hoje, dá-se a passagem do social ao cultural, com a emergência do indivíduo, para além das instituições - o indivíduo hiper-narcisista, hiper-individualista e hiper-consumista. Vivemos numa sociedade pós-social e, em certa medida, também pós-cristã.

A passagem da sociedade à multidão

Diante da emergência de novos valores, além das instituições não terem se renovado, a irrupção do pluralismo e a legitimação das diferenças, também contribuíram para a autonomia dos sujeitos frente às instituições. O controle já não vem das instituições, mas de dentro de cada um, pela internalização das decisões na esfera da subjetividade individual. Com isso, há a passagem da sociedade ao que se convencionou chamar de “multidão”. O conceito ‘povo’ é substituído pelo conceito ‘multidão’, entendida esta como os sujeitos autônomos, dispersos, constituindo como que ‘comunidades invisíveis’ ou virtuais. Sujeitos autônomos e dispersos, mas não isolados, ao contrário, muito bem conectados, na era das novas tecnologias, a era do “acesso”.

É a falência do ‘contrato social’, na medida em que entra em xeque o conceito tradicional de organização. A passagem da sociedade à multidão marca o fim dos sujeitos sociais, organizados em torno a um líder. Vivemos o fim da era dos ‘lideres’ ou de pessoas referenciais. A responsabilidade é transferida para o coletivo, mas conformado por indivíduos dispersos, ainda que não necessariamente isolados.

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