Logotipo

Ambiguidades de um Tempo Pascal

(07/03/2016)

Antes de tudo, agradeço a renovação do convite para continuar em contato com os leitores Diocese em Foco. Neste ano, numa série de 10 artigos e agora mais curtos, pensei em fazer um diagnóstico de nosso contexto sociocultural e religioso atual. Não é tarefa fácil, nem isenta de riscos e equívocos, pois há sempre uma distância entre o sujeito que vê e a realidade que é vista. Como dizia K. Marx, “se a visão do sujeito coincidisse com a coisa, vã seria a ciência”. A saída, portanto, é um olhar analítico, buscando controlar subjetivismos, mas sem cair na tentação da objetividade total, uma pretensão ilusória.

Mergulhados num tempo de profundas transformações

Às vezes, quiséramos ignorar, mas não há como negar. Sobram evidências de que estamos imersos em um tempo marcado por profundas transformações, em que se tem a sensação de que “tudo o que é sólido se desmancha no ar” (Beaudrillard). Não só a Igreja como instituição está em crise; a sociedade, como um todo, está em crise. E mais que isso, de certa maneira, a crise da Igreja é sobretudo reflexo da crise da sociedade, não suficientemente assumida como igualmente sua. O Papa Francisco está acertando os passos da Igreja com os nossos tempos. Mas, está se cansando, pois não encontra muito eco, sobretudo em amplos segmentos do clero.
As mudanças atingem todas as esferas da vida, por isso, a crise é ampla: crise de paradigmas e das utopias, das ciências e da razão, dos metarrelatos e das instituições, crise de identidade, das religiões, de valores, crise de sentido. É um tempo incômodo, pois, está permeado de incertezas e angústias, mais ingente à criatividade do que ao plágio ou para agarrar-se a velhas seguranças de um passado sem retorno. Apodera-se de todos um “sentimento de orfandade”, marcado pela instabilidade, a insegurança e, em muitos casos, o medo e o apocaliptismo.

Crise é desafio a nascer de novo

Entretanto, como nos adverte a sabedoria oriental, crise não é “fim-da-história” ou “beco-sem-saída”. Crise é encruzilhada, ocasião de novas oportunidades, mas à condição de não fugirmos dela. Crise, acrisola; é metamorfose, passagem, travessia, só que tanto para a morte como para um novo nascimento, dependendo de como a enfrentamos. Fugir dela, é presságio de um fim catastrófico; assumi-la, é prenúncio de um tempo pascal, de um novo começo.

MAIS ARTIGOS