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Mensagem para a Quaresma de 2016

Edição Pe. Nilo Buss (28/02/2016)

“Prefiro a misericórdia ao sacrifício” (Mt 9, 13)

1. A aliança de Deus com os homens: uma história de misericórdia.

O mistério da misericórdia divina desvenda-se no decurso da história da aliança entre Deus e o seu povo Israel. Na realidade, Deus mostra-Se sempre rico de misericórdia, pronto em qualquer circunstância a derramar sobre o seu povo uma ternura e uma compaixão viscerais... Encontramo-nos aqui perante um verdadeiro e próprio drama de amor, no qual Deus desempenha o papel de pai e marido traído, enquanto Israel desempenha o de filho/filha e esposa infiéis.

2. Jesus é o rosto misericordioso de Deus.
Este drama de amor alcança o seu ápice no Filho feito homem. N’Ele, Deus derrama a sua misericórdia sem limites até ao ponto de fazer d’Ele a Misericórdia encarnada (cf. Misericordi? Vultus, 8)... Jesus de Nazaré enquanto homem... Ele o é ao ponto de encarnar aquela escuta perfeita de Deus que se exige de cada judeu, pelo Shemà,... “Escuta, Israel! O Senhor é nosso Deus; o Senhor é único! Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Dt 6, 4-5).

3. As obras de misericórdia, o espaço para atuar nossa conversão.
A misericórdia de Deus transforma o coração do homem e faz-lhe experimentar um amor fiel, tornando-o assim, por sua vez, capaz de misericórdia..., estimulando-nos ao amor ao próximo..., para ajudá-lo no corpo e no espírito e sobre o que haveremos de ser julgados: alimentá-lo, visitá-lo, confortá-lo, educá-lo...  Realmente, no pobre, a carne de Cristo “torna-se de novo visível como corpo martirizado, chagado, flagelado, desnutrido, em fuga..., a fim de ser reconhecido, tocado e assistido, cuidadosamente, por nós” (Ibid., 15).

4. Não acolhendo a misericórdia de Deus nos tornamos um pobre miserável.
... Fica patente como o pobre mais miserável seja aquele que não aceita reconhecer-se como tal. Pensa que é rico, mas na realidade é o mais pobre dos pobres. É escravo do pecado, que o leva a utilizar-se da riqueza e do poder,... para sufocar, em si mesmo, a consciência profunda de ser mendigo. E quanto maior for o poder e a riqueza à sua disposição, tanto maior pode tornar-se esta cegueira mentirosa..., que vem acompanhada de um soberbo delírio de onipotência, no qual ressoa sinistramente aquele demoníaco “sereis como Deus” (Gn 3, 5).

5. Nossa pobreza vai até ao delírio da onipotência no âmbito sócio-político.
O delírio pode assumir também formas sociais e políticas, como mostraram os totalitarismos do século XX e mostram hoje as ideologias do pensamento único e da tecnociência que pretendem tornar Deus e reduzir o homem à massa possível de instrumentalizar. E podem atualmente mostrá-lo também as estruturas de pecado ligadas a um modelo de falso desenvolvimento fundado na idolatria do dinheiro, que torna indiferentes ao destino dos pobres as pessoas e as sociedades mais ricas, que lhes fecham as portas recusando-se até mesmo a vê-los.

6. Praticando as obras de misericórdia tocamos a carne de Jesus.
Portanto a Quaresma deste Ano Jubilar é um tempo favorável para todos poderem, finalmente, sair da própria alienação existencial, graças à escuta da Palavra e às obras de misericórdia. Se, por meio das obras corporais, tocamos a carne de Cristo nos irmãos e irmãs necessitados de ser nutridos, vestidos, alojados, visitados... as obras espirituais tocam mais diretamente o nosso ser de pecadores: aconselhar, ensinar, perdoar, admoestar, rezar...

7. Um apelo final à conversão.
Não percamos este tempo de Quaresma favorável à conversão! Pedimo-lo pela intercessão materna da Virgem Maria, a primeira que, diante da grandeza da misericórdia divina, - que Lhe foi concedida gratuitamente, - reconheceu a sua pequenez (cf. Lc 1, 48), confessando-Se a humilde serva do Senhor (cf. Lc 1, 38).

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