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A Pastoral de Conversão Missionária

(01/12/2017)

MODELOS DE PASTORAL EM TORNO À RENOVAÇÃO DO VATICANO II - X

Em tempos de refluxo dos modelos de pastoral do período pré-conciliar (Pastoral de Conservação e Pastoral Coletiva) e também da Pastoral Secularista, tivemos a grata surpresa da Conferência de Aparecida, seguida da inusitada eleição do Papa Francisco. Foram dois acontecimentos que criaram um novo momento na Igreja e reuniram as condições para plasmar um novo modelo de pastoral, que resgata a renovação do Concílio Vaticano II e a tradição libertadora latino-americana, tecida em torno à Conferência de Medellín. Juntando Aparecida com Evangelii Gaudium do Papa Francisco, poderíamos denominar o novo modelo - “pastoral de conversão missionária”. Ele exige segundo Aparecida, uma “conversão pastoral” em quatro âmbitos: na consciência da comunidade eclesial, nas ações pastorais, nas relações de igualdade e autoridade e nas estruturas da Igreja.

Conversão na consciência da comunidade eclesial

Uma Pastoral de Conversão Missionária implica, em primeiro lugar, uma conversão na consciência da comunidade eclesial. Afirma Aparecida que a Igreja “desinstalar-se de seu comodismo, estancamento e tibieza, à margem do sofrimento dos pobres do Continente”. Por isso, “esperamos um novo Pentecostes que nos liberte do cansaço, da desilusão e da acomodação em que nos encontramos” (DAp 362). Num mundo pluralista como o nosso, a conversão no âmbito da consciência da comunidade eclesial implica saber acolher e colaborar com a obra que o Espírito realiza, também fora da Igreja. Não esquecer que “necessidades urgentes nos levam a colaborar com outros organismos ou instituições” (DAp 384). Para trabalhar com os diferentes, entretanto, é preciso “descolonizar as mentes”, fazer cessar a lógica colonialista de rechaço e de assimilação do outro, uma lógica que não vem de fora, mas que está dentro de nós (DAp 96). Por isso, “anúncio e diálogo são elementos constitutivos da evangelização” (DAp 237).

Conversão nas práticas pastorais

Em segundo lugar, uma Pastoral de Conversão Missionária implica mudanças no âmbito das ações. Para Aparecida, a ação pastoral começa pelo testemunho, fruto de uma experiência pessoal com Jesus Cristo (DAp 243). Daí a necessidade de uma ação evangelizadora que chegue às pessoas, para além de comunidades massivas, constituída por cristãos não-evangelizados, de débil identidade cristã e pouca pertença eclesial (DAp 226a). Pessoas capazes de “engendrar padrões culturais alternativos para a sociedade atual” (DAp 480). Por isso, a Igreja está “convocada a ser advogada da justiça e defensora dos pobres”, diante das intoleráveis desigualdades sociais e econômicas, que clamam ao céu (DAp 395). A opção pelos pobres, “para que seja preferencial precisa transpassar todas as nossas estruturas e prioridades pastorais” (DAp 396). Consequentemente, cabe “promover renovados esforços para fortalecer uma pastoral social estruturada, orgânica e integral, que com a assistência e a promoção humana, se faça presente nas novas realidades de exclusão e marginalização, lá onde a vida está mais ameaçada” (DAp 401).

Conversão nas relações de igualdade e autoridade

Em terceiro lugar, conversão pastoral implica mudanças nas relações de igualdade e autoridade. Para Aparecida, o clericalismo, o autoritarismo, a minoridade do laicato, a discriminação das mulheres e a falta de corresponsabilidade entre todos os batizados na Igreja, são os grandes obstáculos para levar adiante a renovação proposta pelo Vaticano II. Daí a necessidade da participação “dos leigos no discernimento, tomada de decisões, do planejamento e da execução” (DAp 371). Neste sentido, destaca Aparecida a necessidade de promover “o protagonismo dos leigos, em especial das mulheres”, estas com ministérios e “efetiva presenca nas esferas de planejamento e nos processos de tomada de decisão” (DAp 458).

Conversão das estruturas

Em quarto lugar, a conversão pastoral precisa descer ao âmbito das estruturas. Segundo Aparecida, a firme decisão missionária de promoção da cultura da vida, “deve impregnar todas as estruturas eclesiais e todos os planos de pastoral, em todos os níveis eclesiais, assim como toda a instituição eclesial, abandonando as estruturas ultrapassadas” (DAp 365). Expressão de uma Igreja, que quer assumir com mais força a opção pelos pobres, são as pequenas comunidades eclesiais ou de base, para Medellín, “célula inicial de estruturação eclesial e foco de evangelização” (DAp 178). Por isso, para Aparecida, levando em consideração suas dimensões, é aconselhável sua “setorização em unidades territoriais menores, com equipes de animação e coordenação que permitam uma maior proximidade às pessoas e grupos que vivem na região”; e, dentro destes setores, criar “grupos de famílias, que ponham em comum sua fé e as respostas a seus próprios problemas” (DAp 372).

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