• A Amazônia também é aqui

A Amazônia também é aqui

Wednesday, March 4, 2020 | Padre Agenor Brighenti

Durante este ano, em uma nova série de dez artigos, vamos nos debruçar sobre um recente evento da Igreja, com forte repercussão dentro e fora dela – que foi o Sínodo da Amazônia. A preocupação com a Amazônia é grande, pois, lá a natureza está sendo devastada em ritmo cada vez mais veloz e, o que resta de seus habitantes originários, vive em situação fragilíssima. Também a Igreja presente naquela imensidão, apesar de seu heroísmo, inclusive regado por sangue de mártires, carece de agentes de pastoral de toda sorte e pede socorro para poder responder a tantos desafios. 

Muitos se incomodaram com convocação deste Sínodo pelo Papa Francisco, como se fosse um problema que não tem nada a ver com a gente. Entretanto, embora longe de nós, a Amazônia não é uma realidade distante e separada do país, do continente e do planeta. Além de se estender por nove países e a maior parte estar no Brasil, do ponto de vista ecológico, sua devastação pode ter consequências inusitadas e, do ponto de vista eclesial, cuidar da casa comum e da vida dos que nela habitam em situação de risco é um imperativo para todos os cristãos, uma questão de fé. Frisa o Papa que convocou este Sínodo “para ajudar a despertar a estima por esta terra, que também é nossa” (Exortação Querida Amazônia, QA 5). Portanto, a Amazônia é lá, mas também é aqui. 

 

A Amazônia como um novo sujeito

Uma das críticas à convocação de um sínodo para a região amazônica alega que ecologia não tem nada a ver com evangelização e que a própria questão ecológica, é uma posição ideológica da esquerda, para ir contra o capitalismo e o progresso. Aquecimento global, dizem, é uma invenção de comunistas. Entretanto, dados científicos comprovados mostram que um modelo de economia e um estilo de vida consumista como o nosso, depredam a natureza e esgotam os recursos do planeta, colocando em risco a vida humana e seus ecossistemas. A natureza não é apenas “meio” ambiente, ela conforma um todo, é nossa casa comum, na qual “tudo está interligado”. Nós não estamos na terra, somos terra também. Lembra o Papa que cada criatura “tem seu valor em si mesma; e, por nossa causa, milhares de espécies já não dão gloria a Deus com sua existência. Não temos esse direito” (QA 54), diz ele. Também porque a própria natureza tem direito, tal como alguns países já o reconheceram em suas leis. O respeito ao direito da natureza impõe-nos o dever de cuidá-la, pois cuidá-la é cuidar da vida, de toda espécie de vida, da nossa vida e da vida das gerações futuras. Temos muito que aprender dos povos indígenas que habitam a região há milhares de anos e são exemplo de convívio respeitoso e harmônico com ela. Ninguém melhor que os povos nativos para nos ensinar a cuidar da casa comum. 

A ecologia, portanto, não é uma questão reservada a ambientalistas. Tanto que Amazônia irrompe como um novo sujeito, no sentido que ela faz da ecologia uma questão que, na atualidade, brada aos céus e interpela toda a humanidade, incluída a Igreja e sua missão evangelizadora. Desde o Gênese, a Criação se fez dom do Criador para toda a humanidade de todos os tempos, entregue a nós criaturas co-criadoras, com “o mandato de cuidá-la e cultivá-la”. Embora o cristianismo, historicamente, nem sempre tenha demonstrado sensibilidade ecológica, pertence à fé cristã uma espiritualidade ecológica, como a viveu Francisco de Assis. A recente Encíclica Laudato Si’ é um forte chamado  para os cristãos incluírem, na vivência da fé e na ação evangelizadora da Igreja, o cuidado da “casa comum”.

 

A Amazônia como novo paradigma

Povos indígenas e cuidado da Casa Comum constituem dois “paradigmas”, a serem levados em conta, quer na iniciativa privada, quer pública, como também na evangelização. A Amazônia, enquanto povos e natureza, apresenta a questão do “outro”, seja ele do ponto de vista ecológico ou étnico. Do ponto de vista ecológico, o “outro” enquanto natureza, quando olhada com espírito de dominação, leva a posturas predatórias e destruidoras. Mas, quando vista como parte de si mesmo e dom do Criador, torna-se instância de admiração e cuidado, de interrelação respeitosa, de responsabilidade. Assumir a ecologia como paradigma, pois, implica uma conversão que integre o cuidado da Casa Comum na missão evangelizadora da Igreja, o que exige uma pastoral da ecologia, que articule compromisso cristão com a salvação do planeta, berço da vida humana e seus ecossistemas.

Do ponto de vista étnico, a Amazônia emerge como paradigma na medida em que o “outro’ são povos que a habitam e que também podem ser olhados como povos atrasados, não civilizados, espaçosos na ocupação do território, obstáculo ao progresso ou, ao contrário, povos diferentes, com sua própria civilização, seus valores, sujeito de direitos como todos os seres humanos, a começar pelo direito de serem eles mesmos e de possuir seus territórios. Isto implica superar todo resquício de mentalidades e práticas colonizadoras, historicamente marcadas pela ganância e a violência. O Sínodo reconhece que, inclusive na evangelização, “frequentemente o anúncio de Cristo se realizou em conivência com os poderes que exploravam recursos e oprimiam as populações” (Documento Final, DF 15). Assumir, pois, os povos nativos como paradigma na evangelização implica defender a identidade cultural dos povos originários e a aprender deles e com eles como viver as bem-aventuranças de uma relação harmoniosa das criaturas com a Criação e o Criador, em uma sobriedade feliz – que os indígenas denominam - “bem viver”, na língua quechua – sumak kawsay.

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